As extensas partes censuradas nos documentos levantam inevitavelmente questões – principalmente porque tais omissões parecem ter como objectivo proteger os perpetradores ricos e poderosos, e não as vítimas. A pressão política levou a administração Trump a conceder aos membros do Congresso o acesso aos arquivos sem censura. No entanto, quando e se o público terá acesso a estas versões permanece uma incógnita. De qualquer modo, esta enorme quantidade de ficheiros fornece, em detalhes sórdidos, o que já era conhecido na sua essência. A história básica continua a ser a mesma: Jeffrey Epstein, um homem extremamente rico com ligações a figuras importantes de todo o mundo, traficou e abusou sexualmente de jovens mulheres durante um longo período, muitas delas menores de idade. Algumas tinham apenas nove anos, segundo os relatos. Tratava-se de abusos de menores à escala industrial – perpetrados com o apoio de Ghislaine Maxwell, amiga e braço direito de Epstein, que até hoje é a única pessoa presa pelo seu papel neste escândalo. O número de vítimas chega às centenas; os ficheiros apontam também para crimes sexuais particularmente desinibidos alegadamente cometidos por Epstein, Maxwell e pessoas do seu círculo. A atenção pública está focada principalmente nestes actos hediondos, enquanto as consequências políticas das actividades de Epstein estão apenas a começar a ser sentidas. O presidente Donald Trump sobreviverá ao escândalo, apesar dos seus antigos laços de amizade com Epstein — alguns dos seus confidentes poderão não sobreviver. Tornou-se um escândalo global. Na Grã-Bretanha, o governo do primeiro-ministro Keir Starmer está sob pressão devido às ligações de várias figuras proeminentes do Partido Trabalhista com Epstein. Andrew Mountbatten-Windsor, anteriormente Príncipe André, não só foi banido do círculo íntimo da Família Real por causa da sua relação desprezível com Epstein; enfrenta agora também uma investigação policial — e o seu irmão, o rei Carlos III, parece já não o proteger. O escândalo Epstein lança uma luz incómoda sobre os excessos criminosos das elites de todo o mundo – da Europa à Ásia e ao Médio Oriente. Epstein circulava num vasto círculo de amigos e contactos, uma verdadeira seleção de VIP globais. Muitos deles não tinham nada a ver com os crimes sexuais do falecido – mas alguns aparentemente tinham. E não faltavam muitos que certamente sabiam o que se estava a passar.
O Mistério da Riqueza de Epstein
Mas o mistério central que envolve o caso Epstein diz menos respeito aos crimes sexuais em si do que à forma como Epstein – um homem de origens bastante humildes – ascendeu aparentemente do nada aos círculos exclusivos dos super-ricos. A primeira questão, portanto, é: De onde veio a enorme riqueza de Epstein? Apresentava-se como bilionário ou quase bilionário, com propriedades palacianas em Manhattan e nas Caraíbas, um jato privado e todos os símbolos de riqueza. Ao mesmo tempo, não tinha uma profissão claramente identificável – e aparentemente tempo ilimitado para violar raparigas e conversar com oligarcas sobre ciência.
Epstein apresentava-se à elite global como um génio das finanças. No entanto, apenas um dos seus principais clientes é conhecido: o magnata da moda bilionário Les Wexner, com quem terá tido uma relação muito próxima. Epstein não possuía licença de corretor desde meados da década de 1980 e praticamente não deixou rasto em Wall Street. Como acumulou a sua fortuna permanece um mistério. Uma recente investigação aprofundada do New York Times oferece algumas pistas: retrata Epstein na década de 1980 como um ambicioso alpinista social, um vigarista habilidoso que utilizava métodos questionáveis para chegar à elite financeira.
Era Epstein um agente dos serviços de informação?
Esta questão em aberto sobre as suas finanças leva a uma segunda questão, ainda maior: para quem trabalhava Epstein? Um ponto central neste escândalo é que Epstein não era apenas um indivíduo, mas antes uma espécie de organização. Qualquer pessoa que abuse e trafique tantas mulheres jovens durante um longo período cria inimigos. Nem todas as vítimas permanecem em silêncio. As raparigas violadas têm famílias e amigos. Quem as manteve em silêncio durante décadas? Nenhum homem sozinho consegue fazer isso — mesmo que seja rico. Encobrir tais crimes indefinidamente exige cúmplices. Cúmplices dispostos a usar violência. (De notar que algumas das vítimas de Epstein parecem ter desaparecido; além disso, há rumores de que Epstein colecionava vídeos de tortura e até filmes snuff que retratavam assassinatos sexuais.) As vítimas sabiam que enfrentariam consequências terríveis se testemunhassem contra Epstein e Maxwell.
Epstein gozava da confiança dos poderosos.
A que agência de inteligência pertencia Epstein? Para explicar isto, é preciso compreender a verdadeira espionagem — e, antes de mais, descartar as fantasias de James Bond. Epstein não era um "espião" no sentido de 007. Não participava em encontros clandestinos sob pontes escuras ou entregas secretas enquanto corria. Em vez disso, era aquilo a que os profissionais chamam um "agente de acesso": alguém que estabelece relações com alvos de alto perfil. O valor de Epstein para qualquer agência de inteligência séria era enorme — dados os seus contactos com centenas de VIP globais de todas as esferas da vida, incluindo príncipes, primeiros-ministros e presidentes. Conseguia manipular as pessoas com facilidade — e, como se não bastasse, recorria a vídeos comprometedores que tinha gravado durante escapadelas sexuais nas suas casas.
... Na óptica da contra-espionagem, a rede de Epstein emerge com mais clareza: era um homem corrupto que se insinuava entre os ricos e poderosos do mundo — trabalhando para várias agências de informação de diferentes países. Um empresário com segredos de uma magnitude particularmente perturbadora.
O foco atual na depravação sexual de Epstein não deve obscurecer a influência que exercia nos bastidores. Jeffrey Epstein, que abandonou a faculdade, recebia constantemente VIP e parecia conhecer toda a gente. Quando Bill Burns, um dos mais importantes diplomatas norte-americanos, deixou o Departamento de Estado em 2014 e procurou aconselhamento de carreira, recorreu a Epstein. Burns tornou-se mais tarde diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) durante o governo do presidente Joe Biden. Em 2015, o filho do antigo presidente do Senegal, que enfrentava a prisão por corrupção, também precisava de ajuda — e, em vez dos lobistas tradicionais, recorreu a Epstein.